quarta-feira, 7 de maio de 2014

25 VERDADES

Repórteres Sem Fronteiras: 25 verdades

Por Salim Lamrani, no site Opera Mundi:


A organização francesa pretende apenas defender a liberdade de imprensa. Na verdade, por trás da nobre fachada, se esconde um agenda política muito precisa.

1. Fundada em 1985 por Robert Ménard, Jean-Claude Guillebaud e Rony Brauman, a Repórteres sem Fronteiras tem como missão oficial “defender a liberdade de imprensa no mundo, isto é, o direito de informar e ser informado, conforme o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.”

2. Entretanto, apesar dessa profissão de fé oficial, a RSF tem uma face obscura e uma agenda política muito precisa, ligada à de Washington, e arremete particularmente contra os governos de esquerda da América Latina, preservando, ao mesmo tempo, os países desenvolvidos.

3. Assim, a RSF tem sido financiada pelo governo dos Estados Unidos pela National Endowment for Democracy (Fundação Nacional pela Democracia, a NED, por sua sigla em inglês). A organização o reconhece: “Efetivamente, recebemos dinheiro da NED. E não é nenhum problema para nós.”

4. A NED foi criada pelo antigo presidente norte-americano Ronald Reagan em 1983, em uma época na qual a violência militar tinha tomado a dianteira da diplomacia tradicional nos assuntos internacionais. Graças à sua poderosa capacidade de penetração financeira, a NED tem como objetivo debilitar os governos que se oporiam à política externa de Washington.

5. De acordo com o New York Times (em artigo de março de 1997) a NED “foi criada há 15 anos para realizar publicamente o que a Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência, a CIA) tem feito sub-repticiamente durante décadas. Gasta 30 milhões de dólares anuais para apoiar partidos políticos, sindicatos, movimentos dissidentes e meios de comunicação de dezenas de países.”

6. Em setembro de 1991, Allen Weinstein, pai da legislação que deu luz à NED, expressou o seguinte ao Washington Post: “Muito do que fazemos hoje tem sido feito clandestinamente pela CIA há 25 anos.”

7. Carl Gershman, primeiro presidente da NED, explicou a razão de ser da fundação em junho de 1986: “Seria terrível para os grupos democráticos do mundo inteiro serem vistos como subvencionados pela CIA. Vimos isso nos anos 60 e por isso demos um fim nisso. É porque não poderíamos continuar que a fundação foi criada.”

8. Assim, segundo o The New York Times, Allen Weinstein e Carl Gershman, a RSF é financiada por um escritório de fachada da CIA.

9. A RSF também recebeu financiamento do Center for a Free Cuba (Centro para uma Cuba Livre). O diretor da organização à época, Frank Calzón, foi anteriormente um dos presidentes da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), gravemente implicada no terrorismo contra Cuba, como foi revelado por um de seus antigos diretores, José Antonio Llama.

10. A RSF recebeu fundos da Overbrook Foundation, entidade fundada por Frank Altschul, promotor da Radio Free Europe, estação da CIA durante a Guerra Fria, e colaborador próximo de William J. Donovan, chefe dos serviços secretos estadunidenses nos anos 50 e fundador do Office of Strategic Services (Agência de Serviços Estratégicos), predecessora da CIA.

11. No passado, a RSF se manteve em silêncio sobre as exações cometidas pelo Exército dos Estados Unidos contra os jornalistas. Assim, a RSF somente de lembrou tardiamente — cinco anos depois — do caso Sami Al-Haj, jornalista do canal do Qatar Al-Jazeera, preso e torturado no Afeganistão por autoridades norte-americanas e em seguida enviado para Guantánamo. Al-Haj foi libertado no dia 1 de maio de 2008, depois de mais de seis anos de calvário. Ou seja, a RSF precisou de uma investigação de 5 anos para descobrir que Al-Haj foi preso, sequestrado e torturado apenas por ser jornalista.

12. Em um relatório de 15 de janeiro de 2004, a RSF exonerou de qualquer envolvimento os militares norte-americanos responsáveis pelo assassinato do jornalista espanhol José Couso e de seu colega ucraniano Taras Protsyuk no hotel Palestina, em Bagdá. De acordo com a família de Couso, “as conclusões desse relatório isentam de culpa os autores materiais e reconhecidos do disparo contra o hotel Palestina baseando-se na duvidosa imparcialidade dos envolvidos e do próprio testemunho dos autores e responsáveis pelo disparo, deslocando essa responsabilidade para pessoas não identificadas. A realização desse relatório foi assinada por um jornalista, Jean-Paul Mari, que tem conhecidas relações com o coronel Philip de Camp, militar que reconheceu seu envolvimento no ataque e nas mortes dos jornalistas do hotel Palestina e, além disso, seu relatório se apoia no testemunho de três jornalistas das forças dos Estados Unidos, todos eles norte-americanos, tendo alguns deles feito parte — Chris Tomlinson — dos serviços de inteligência do Exército dos Estados Unidos durante mais de sete anos. Nenhum dos jornalistas espanhóis que estavam no hotel foram consultados para a elaboração desse documento”. No dia 16 de janeiro de 2007, o juiz madrilenho Santiago Pedraz emitiu uma ordem de prisão internacional contra o sargento Shawn Gibson, o capitão Philip Wolford e o tenente-coronel Philip de Camp, responsáveis pelos assassinatos de Couso e Protsyuk e absolvidos pela RSF.

13. A RSF fez apologia à invasão do Iraque em 2003 ao afirmar que “a derrubada da ditadura de Saddam Hussein pôs fim a 30 anos de propaganda oficial e abriu uma era de nova liberdade, cheia de esperanças e de incertezas, para os jornalistas iraquianos. Para os meios de comunicação iraquianos, décadas de privação total de liberdade de imprensa chegaram a seu fim com o bombardeio do ministério de Comunicação, no dia 9 de abril em Bagdá.”

14. No dia 16 de agosto de 2007, durante o programa de rádio “Contre-expertise”, Robert Ménard, então secretário-geral da RSF, legitimou o uso da tortura.

15. A RSF apoiou o golpe de Estado contra o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, que foi organizado pela França e pelos Estados Unidos, com o matéria “A liberdade de imprensa recuperada: uma esperança a ser mantida.”

16. Durante o golpe de Estado contra Hugo Chávez em abril de 2002, organizado por Washington, a RSF publicou um artigo, no dia 12 de abril de 2002, que retomava sem reserva alguma a versão dos golpistas e tentava convencer a opinião pública internacional de que Chávez tinha renunciado. “Recluso no palácio presidencial, Hugo Chávez assinou sua renúncia durante a noite, sob pressão do Exército. Depois foi levado para Fuerte Tiuna, a principal base militar de Caracas, onde está detido. Imediatamente depois, Pedro Carmona, o presidente da Fedecámaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio da Venezuela), anunciou que dirigiria um novo governo de transição. Afirmou que seu nome era fruto de um ‘consenso’ da sociedade civil venezuelana e dos comandantes das forças armadas.”

17. A RSF sempre negou tomar nota do caso de Mumia Abu-Jamal, jornalista negro preso nos Estados Unidos há 30 anos por denunciar em suas reportagens a violência policial contra as minorias.

18. A RSF organiza regularmente campanhas contra Cuba, país onde nenhum jornalista foi assassinado desde 1959. A organização está em estreita colaboração com Washington a esse respeito. Dessa forma, em 1996, a RSF teve um encontro em Paris com Stuart Eizenstat, embaixador especial da administração Clinton para assuntos cubanos.

19. No dia 16 de janeiro de 2004, a RSF se reuniu com os representantes da extrema-direita cubana da Flórida para estabelecer uma estratégia de luta midiática contra o governo cubano.

20. A RSF lançou várias campanhas midiáticas difundindo mensagens publicitárias nos meios de comunicação escritos, de rádio e de televisão, destinadas a dissuadir os turistas de viajar para Cuba. É o que preconiza o primeiro relatório da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, publicado pelo presidente George W. Bush em maio de 2004 e que recrudesce as sanções contra Cuba. Assim, esse relatório cita a RSF na página 20 como exemplo a ser seguido.

21. A RSF afirma abertamente que somente lhe interessam os países do Terceiro Mundo: “Decidimos denunciar os atentados contra a liberdade de imprensa na Bósnia e no Gabão e as ambiguidades dos meios argelinos ou tunisianos... mas não tomamos nota dos excessos franceses”. Por quê? “Porque se o fazemos, corremos o risco de incomodar alguns jornalistas, suscitar a inimizade dos grandes donos de imprensa e irritar o poder econômico. Agora veja, para nos tornamos midiáticos, precisamos de cumplicidades dos jornalistas, do apoio dos donos de imprensa e do dinheiro do poder econômico.”

22. Jean-Claude Guillebaud, co-fundador da RSF e primeiro presidente da associação, abandonou a organização em 1993. Explicou as razões: “Eu pensava que uma organização desse tipo poderia ser legítima se incluísse um trabalho de crítica do funcionamento dos meios de comunicação ocidentais. Seja sobre os desvios do trabalho jornalístico (falsas entrevistas etc.) ou fazendo um trabalho profundo de reflexão sobra e evolução dessa profissão, suas práticas e os possíveis ataques às liberdades nas democracias. Caso contrário, nos veriam como neocolonialistas, como arrogantes que pretendem dar lições. Quando se chama a atenção dos líderes dos países do Terceiro Mundo sobre os ataques à liberdade de imprensa em seus países, a questão que se levanta automaticamente contra nós é saber que uso nós damos à nossa liberdade. Ainda que os objetivos não sejam os mesmos, é uma questão essencial e eu achava que tínhamos de dedicar a ela 50% do nosso tempo e de nossa energia (...). À medida que a associação se desenvolvia, as operações se tornavam mais e mais espetaculares. Foram levantadas duas questões: não havia uma contradição em denunciar certos desvios do sistema midiático e usar os mesmos métodos nas nossas ações de denúncia? Por sua vez, Robert Ménard achava que tinha de passar por cima de toda a atividade crítica aos meios de comunicação para conseguir o apoio da grande imprensa e das grandes cadeias de televisão (...). Para mim, pareciam próximos demais da imprensa anti-Chávez na Venezuela. Não há dúvida de que era necessário ser mais prudente. Eu acho que eles ouvem muito pouco sobre os Estados Unidos.”

23. O diário francês Libération, fiel patrocinador da organização, aponta que a RSF permanece em silêncio sobre os abusos dos meios de comunicação ocidentais: “No futuro, a liberdade de imprensa será exótica ou não será. Muitos “reprovam sua ira contra Cuba e contra a Venezuela e sua indulgência em relação aos Estados Unidos, o que não é falso.”

24. A RSF nunca dissimulou suas relações com o mundo do poder. “Um dia tivemos um problema de dinheiro. Eu liguei para o empresário François Pinault pedindo que nos ajudasse (...). Ele respondeu meu pedido em seguida. E isso é a única coisa que importa” porque “a lei da gravidade existe, queridos amigos. E também a lei do dinheiro.”

25. Assim, apesar das reinvindicações de imparcialidade e de defesa da liberdade de imprensa, a RSF tem efetivamente uma agenda política e arremete regularmente contra os países da nova América Latina.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ASSASSINO NO INFERNO - BRASIL

Lugar bom para o torturador Paulo Malhães era a cadeia, e não o caixão

Mário Magalhães 

A morte do antigo torturador, matador e ocultador de cadáveres Paulo Malhães o livrou de possivelmente vir a ser julgado e condenado pelas violações de direitos humanos das quais ele foi autor durante a ditadura.

Entre seus crimes imprescritíveis, cometidos com a farda de oficial do Exército Brasileiro, estão o de tortura e o de ocultação de cadáveres. O coronel era criminoso confesso.

De acordo com interpretação em vigor da Justiça sobre a Lei de Anistia, imposta pela ditadura em 1979, Malhães não poderia ir a tribunal e ser punido pelos crimes que acumulou como agente do Estado.

Porém, um amplo movimento se desenvolve para que o Brasil se equipare a países que não consagram a impunidade e punem antigos repressores. Ninguém encarnava a violência do Estado no período 1964-1985 como Malhães, desde que ele relatou seus “feitos''.

À Comissão Estadual da Verdade do Rio e à Comissão Nacional da Verdade, o militar reformado disse que ele e seus parceiros, depois de matarem oposicionistas na tortura, cortavam seus dedos, arrancavam os dentes e extirpavam as vísceras. Tudo para eternizar o desaparecimentos dos prisioneiros, evitando sua identificação e impedindo que viessem a boiar, depois de atirados em rios.

Por mais características de monstro que Malhães exibisse (e ele exibia), sua principal condição não era a de vilão de filmes de terror, e sim a de funcionário público aplicado, que executava exemplarmente uma política de Estado, a da ditadura.

Malhães não praticou “desvios'' ou “excessos'', e sim os crimes que o governo ordenava.

Ao ser morto na quinta-feira, em sua casa na Baixada Fluminense, escapou de vir a ser julgado como a democracia impõe. No seu caso, a impunidade sobrepujou os anseios de justiça.

Seu lugar era na cadeia, e não no inferno, onde no momento, se é que o inferno existe, ele confraterniza com torturadores como Cecil Borer, Sérgio Paranhos Fleury e Freddie Perdigão. Na fila, esperando para abraçá-lo, estão os carrascos da escravidão, os matadores do Estado Novo e os veteranos do Esquadrão da Morte. Adolf Hitler já lhe apertou a mão e deu as boas-vindas.

Ainda há muitos Malhães por aí, inclusive quem durante a ditadura estava acima dele na cadeia de comando.

Sobre sua morte, o pior seria descartar qualquer hipótese: crime de queima de arquivo por parte do aparato de extermínio do jogo do bicho (Malhães trabalhou para a contravenção), latrocínio, assassinato por antigos repressores da ditadura, mostrando o que pode acontecer com quem abre o bico, vingança por outras barbaridades e querelas.

OBAMA - CADELINHA BURRA

EUA arrastam o mundo à guerra


[*] Paul Craig Roberts − Institute for Political Economy

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O regime Obama, chafurdando em húbris e arrogância, escalou temerariamente a crise ucraniana e fez dela uma crise com a Rússia. Intencionalmente, ou por estupidez, as mentiras de propaganda dos EUA estão agora fazendo da crise, guerra. Cansada de ouvir as ameaças tresloucadas dos EUA, Moscou já nem atende telefonemas de Obama e dos principais funcionários de Washington.

A crise na Ucrânia começou quando Washington derrubou o governo democrático eleito e o substituiu por idiotas escolhidos a dedo por Washington. Os idiotas puseram-se a atacar, com palavras e à bala, as populações de ex-territórios soviéticos que líderes comunistas soviéticos anexaram à Ucrânia. Consequência dessa política de doidos, é a agitação da população que fala russo, e que escolheu voltar a ser parte da Federação Russa. A Crimeia já se uniu à Rússia. Agora, o leste da Ucrânia e outras partes do sul da Ucrânia provavelmente também se unirão à Rússia.

Em vez de ver seus próprios erros, o regime Obama estimulou os idiotas que Washington instalou em Kiev a usar de violência contra as áreas onde vivem falantes de russo, que querem organizar referendos, para que possam votar e aprovar a reintegração das áreas em que vivem, à Rússia. O regime Obama encorajou os idiotas a usarem de violência, apesar da clara declaração do Presidente Putin, de que nenhuma força militar russa jamais ocuparia a Ucrânia, a menos que os manifestantes ucranianos que se opunham ao governo dos idiotas em Kiev fossem vítimas de violência.

A única conclusão possível é que ou Washington nada ouve do que lhe digam, ou, então, que Washington deseja violência.

Se nem os EUA nem a OTAN estão posicionadas dessa vez para mover força militar significativa para a Ucrânia, suficientes para confrontar o Exército Russo, por que o regime Obama tanto se esforça para provocar a ação dos militares russos?

Uma possível resposta é que, agora que o plano dos EUA de expulsar a Rússia de sua base naval no Mar Vermelho foi derrotado, Washington abraça o plano de sacrificar a Ucrânia a uma invasão russa, para que os EUA ponham-se a demonizar a Rússia e forcem vasto aumento nos gastos militares e no orçamento da OTAN e deslocamento de tropas da OTAN.

Em outras palavras, o negócio é uma nova guerra fria e mais milhões de dólares em lucros para o complexo militar/de segurança dos EUA.
A meia dúzia de soldados e aviões que Washington mandou para “garantir” os regimes incompetentes naqueles pontos perenes de problemas para o Ocidente – Polônia e países do Báltico – e os navios armados com mísseis enviados para o Mar Negro são NADA. São só provocação simbólica.

Sanções econômicas aplicadas a funcionários e milionários russos só fazem comprovar a impotência dos EUA. Sanções reais feririam os estados da OTAN, fantoches de Washington, muito mais do que feririam a Rússia.

É claro que Washington não tem qualquer intenção de acertar coisa alguma com o governo russo. As “exigências” de Washington foram “impostas”, porque não são aceitáveis. Washington está “exigindo” que o governo russo puxe o tapete debaixo dos pés dos manifestantes pacíficos no leste e no sul da Ucrânia e force populações russas na Ucrânia a submeterem-se aos idiotas dos EUA em Kiev. Os EUA também “exigem” que a Rússia renegue a reunificação da Crimeia e devolva a Crimeia aos EUA, para que Washington consiga, assim, completar o projeto de expulsar a Rússia de sua base no Mar Negro.

Em outras palavras, os EUA querem que a Rússia cole outra vez os cacos que resultaram da loucura de Washington na Crimeia e entregue a coisa, recomposta, aos EUA.

É “exigência” tão irrealista, tão alucinada, que ultrapassa qualquer arrogância. O Doido da Casa Branca está dizendo a Putin:

Me danei, quando tentei invadir seu quintal. Ordeno que você, agora, invada o seu quintal e me dê o seu quintal, para que eu me safe com uma boa “ameaça estratégica” que me permita expulsar você do seu quintal.

A imprensa-empresa prostituta, a press-tituta mídia ocidental (brasileira inclusive Nrc) e os estados-fantoches dos EUA na Europa estão apoiando essa “exigência” alucinada. Consequentemente, os líderes russos perderam qualquer confiança que tivessem nas palavras e nas intenções do ocidente; e é assim que começam as guerras.

Governos europeus estão pondo os próprios países em grave risco. E para ganharem o quê? Os líderes europeus são chantageados, ameaçados, subornados com sacos de dinheiro? Ou estão tão viciados em seguir o comando dos EUA que só sabem fazer isso, obedecer os EUA? O que Alemanha, Grã-Bretanha e França teriam a ganhar, por deixar que Washington os empurre a um confronto com a Rússia?

A arrogância dos EUA é coisa jamais vista e pode arrastar o mundo à destruição. Que fim levou o senso de autopreservação da Europa? Por que a Europa não emite mandados de prisão contra todos os membros do governo Obama? Sem a cobertura que lhe dão a Europa e a imprensa-empresa press-tituta, os EUA não conseguiriam arrastar o mundo à guerra.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service.Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

UCRÂNIA - DILUINDO-SE ...

A vez de Donetsk

Mauro Santayana 

O Ocidente desestruturou uma nação que se encontrava unificada


Manifestantes que ocupam, há 48 horas, instalações públicas em Donetsk, na Ucrânia, proclamaram, unilateralmente, ontem, uma República Popular, na província em que se fala russo. E querem convocar um referendo para sua anexação à Rússia, para o próximo dia 11 de maio, nos moldes do que foi feito na Crimeia no mês passado.

As autoridades policiais não resistiram nem tentaram conter os manifestantes.

Em outra cidade, Lugansk, manifestantes favoráveis à Rússia ocuparam a sede dos órgãos de segurança, e fizeram o chefe de polícia — que também não resistiu — libertar dezenas de prisioneiros favoráveis a Moscou que estavam detidos há alguns dias.

Em Kharkov, segunda maior cidade ucraniana e centro industrial do país, houve enfrentamento entre habitantes de língua russa, que ocuparam a sede do governo local, e manifestantes fiéis ao golpe desfechado contra o presidente Yanukovitch em março.

Embora as novas “autoridades” ucranianas estejam acusando o serviço secreto russo pelos tumultos, a verdade é que o apoio ao governo golpista é cada vez menor, e boa parte do território ucraniano é ocupado por habitantes de origem russa, que se recusam a se aproximar do Ocidente e se sentem ameaçados pelos golpistas de extrema direita que estão no poder em Kiev.

Eles viram que, ao contrário do que ocorreu na “libertação” do Iraque, do Egito, da Líbia, do Afeganistão, pela Otan, onde morreram — e continuam perdendo a vida — centenas de milhares de pessoas, a “russianização” da Crimeia foi feita em poucos dias, e quase sem violência.

O fato é que, assim como fez, em muitos outros lugares, supostamente em nome da “democracia”, o Ocidente desestruturou completamente uma nação que se encontrava institucionalmente unificada, funcionava razoavelmente dentro da lei, com um presidente eleito diretamente pela população, e aguardava pacificamente as próximas eleições, porque não queria que a Ucrânia “caísse” sob a influência de Moscou.   

Como demonstra a situação em Donestk e em Kharkov, a influência russa na Ucrânia, do ponto de vista político, econômico, cultural, já existia, é muito maior do que se pensa na Europa e nos EUA, e permeia vastas regiões e milhões de habitantes, que se sentem russos.

A Rússia está em seus corações e mentes. Eles vivem, como russos, há séculos. E é mais fácil que a Ucrânia se divida — a partir da fragmentação irresponsavelmente iniciada em Maidan —  do que eles virem a se inclinar para o lado contrário, o dos golpistas neofascistas que tomaram o poder de assalto,  em Kiev, há poucas semanas.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

COSTA RICA - ESQUERDA VOLVER!

Pela primeira vez um presidente de esquerda pode ser eleito na Costa Rica


Marcela Belchior
Adital

Pela primeira vez na história política da Costa Rica, um candidato de esquerda é o mais votado e enfrentará com ampla vantagem um segundo turno de eleições presidenciais. Luis Guillermo Solís Rivera, candidato pelo Partido Ação Cidadã (PAC), figurou à frente dentre os cinco presidenciáveis, com 30,84% dos votos. Na segunda etapa do pleito, ele enfrenta Johnny Araya Monge, membro do tradicional Partido Liberação Nacional (PLN), que recebeu os votos de 29,64% dos eleitores, mas que quase desapareceu na campanha para o segundo turno. Os dois seguem para as urnas neste domingo, 06 de abril.
O Partido Socialista Centro-Americano (PSOCA) publicou que, com a eleição, aumentam as expectativas de uma gestão mais democrática no país, com possibilidades de mudança na atual estrutura econômica e nas relações sociais. É esperada a superação de um contexto político de forte repressão às vozes da esquerda radical, políticas neoliberais e interesses privados por parte do governo federal. Anteriormente, o líder do PAC, Otto Solís, havia postulado o mandato de presidente por três vezes, sem conseguir.
No início de março deste ano, Johnny Araya chegou a anunciar que renunciaria à candidatura, mas reviu sua posição alguns dias depois, considerando que a Constituição proíbe renúncias a candidaturas presidenciais. Mesmo mantida a campanha, os analistas políticos a consideram ausente. Ele chegou a justificar que não tinha possibilidades de ganhar por falta de recursos e pelas sondagens internas do partido, além de pesquisas desfavoráveis.
Agora, a imprensa hegemônica do país considera a eleição de "um só candidato”. Por isso, debates e enquetes estão quase ausentes no processo. Segundo pesquisa publicada na imprensa nacional, a tendência é de que haja pelo menos 50% de abstenção de votos no próximo domingo.
Inicialmente, a campanha de Araya para o segundo turno se posicionou sob forte conservadorismo, manifestando oposição diante do aborto, do casamento homossexual e da fertilização in vitro, focando nos eleitores cristãos. A candidatura esquerdista também se diz contrária à legalização do aborto e da institucionalização do matrimônio homossexual, porém defende uma legalização de união de casais de mesmo sexo diferente do casamento.
Ambas as candidaturas têm entre as propostas de governo: reforma tributária, Estado laico e fortalecimento dos direitos dos animais. Araya é contra a legalização da maconha, enquanto Solís não se posiciona sobre o tema.
A campanha eleitoral prosseguiu até a última quarta-feira, 02 de abril. Analistas consideram que essa foi a campanha política costarriquenha em que as redes sociais tiveram maior influência, que muito soube capitalizar seus eleitores o candidato esquerdista Solís, alcançando jovens, profissionais e a classe média.
A primeira etapa das eleições presidenciais da Costa Rica de 2014 foi realizada em 02 de fevereiro deste ano, para eleger presidente, primeiro e segundo vice-presidentes, além de deputados da Assembleia Legislativa. O candidato eleito governará a Costa Rica até 2018, sucedendo, a partir de 08 de maio, Laura Chinchilla, primeira mulher presidente na história do país.
O próximo mandatário deverá dedicar-se a fechar acordos com outras bancadas, diante de um Congresso fracionado em uma dezena de partidos e sem maioria, já que o PAC de Solís obteve somente 13 vagas, diante de 18 do PLN de Araya. Os 57 novos deputados do Congresso eleitos em 02 de fevereiro assumirão em 1º de maio.

segunda-feira, 31 de março de 2014

VENEZUELA BOLIVARIANA !


os esquálidos venezuelanos estão brincando com fogo...

Alto Comando Militar da Venezuela:
O diálogo, a tolerância e a paz devem ser as bandeiras dos venezuelanos

26 DE MARZO 2014 – 09H49

O Alto Comando Militar emitiu un comunicado nesta quarta-feira, 26, em que ratifica que a atividade da Força Armada Nacional Bolivariana está orientada para o bem-estar de todos os venezuelanos, estando por isto cimentada na disciplina, na obediencia e na subordinação à Constituição da República Bolivariana de Venezuela.

"Não estamos dispostos a aceitar que seja vulnerada nossa soberania nem retroceder no camino em direção às conquistas que se vêm alcançando em benefício de todos”, destaca o comunicado.

Em seguida o texto integral:

Comunicado do Alto Comando Militar da Força Armada Nacional Bolivariana

La cohesión de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana, claridad sobre su misión y visión no se decretan ni es necesario expresarlas con palabras, pues la conducta asumida por nuestra institución ha sido demostrada en forma coherente desde el inicio de esta situación que se ha denominado golpe suave, que se ha venido enfatizando desde el 12 de febrero del 2014, derivando en daños a las instalaciones del Estado y hasta más grave aún ocasionando la muerte a nuestros connacionales.

La Fuerza Armada Nacional Bolivariana ha estado presente protegiendo a Nuestro Pueblo, velando por la soberanía de nuestra Patria y respaldando al Presidente de la República Bolivariana de Venezuela y Comandante en Jefe de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana constitucionalmente electo.

Tal como lo señaló nuestro Comandante en Jefe, se presentó una situación con tres (03) oficiales generales, se procedió inmediatamente al ser detectados a tomar las acciones en el marco de nuestra normativa legal para que se aplique lo que en justicia corresponde, conforme a las instrucciones impartidas por el Comandante en Jefe Nicolás Maduro Moros. En tal sentido, se realizó la debida notificación a la Fiscalía Militar, la cual hace lo conducente en el ámbito de sus atribuciones, dejándolos privados de libertad.

Paralelamente a ello, con apego total a las disposiciones que nos rigen como militares en servicio activo, reafirmamos nuestra convicción en los pilares fundamentales en los que descansa la conducta y acción de cada hombre y mujer del pueblo uniformado: la disciplina, la obediencia, la subordinación y la Constitución de la República Bolivariana de Venezuela, la cual nos obliga a cumplir estrictamente lo prescrito en ella, las leyes y reglamentos militares, por lo que se constituirá un consejo de investigación, previsto en la Ley Orgánica de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana, conformado por un cuerpo colegiado destinado a la calificación de las infracciones en que pudieran haber incurrido los oficiales generales, tal como lo tipifica el Reglamento de Castigo Disciplinario Nº 6.

Frente a estos hechos la Fuerza Armada Nacional Bolivariana se mantiene monolítica, y en nada merman nuestra convicción democrática ni la moral de quienes a través de sus actuaciones han logrado consustanciarse con la realidad de nuestro Pueblo pues gracias a nuestro Comandante Supremo y Eterno Hugo Chávez logramos comprender que la Unión Cívico Militar nos hace más fuertes y sólidos, y que todos nuestros esfuerzos deben ser orientados a lograr el bienestar de todos los venezolanos, lo cual nos conforta pues dejamos de estar en la retaguardia, para estar en la vanguardia del desarrollo de nuestra patria.

Hoy más que nunca estos escollos reafirman nuestras convicciones, para indicarnos que estamos en el camino correcto. No estamos dispuestos a aceptar que sea vulnerada nuestra soberanía ni a retroceder en el camino hacia los logros que se han venido alcanzando en beneficio de todos.

No somos esa Fuerza Armada elitesca ni alejada de las realidades de nuestro pueblo. Hoy como nunca estamos convencidos, preparados y dispuestos a seguir con la moral en alto.

Siempre nos hemos crecido en la adversidad y creemos firmemente, ahora más que nunca, en la justicia de nuestro país, que se aplicará para cada uno de los victimarios, de esta violencia provocada por actores, quienes han planificado el enfrentamiento del pueblo contra el pueblo.

Seguimos trabajando y creemos que el diálogo, la tolerancia y la paz deben ser las banderas de todos los venezolanos y venezolanas, sin excepción alguna. Un país no se construye con violencia y resentimiento sino con justicia, cooperación y entendimiento.

Desde el Gobierno Nacional, desde nuestra Fuerza Armada Nacional Bolivariana, hacemos un llamado a cada mujer y hombre de esta tierra a reflexionar, a unirnos como uno solo, como hermanos, enlazados por nuestra historia, por nuestras raíces libertarias, por la idiosincrasia que nos caracteriza.

Aprovechamos la oportunidad en nombre de todo el Alto Mando Militar para enviar un saludo fraterno, patriota y revolucionario a los soldados y soldadas de la patria, a lo largo y ancho del país… Donde esté un soldado estará la fuerza que ilumina el sendero soberano de nuestra querida Venezuela. Seguimos defendiendo nuestra soberanía, luchando por nuestro preciado orden interno, participando activamente en el desarrollo nacional y especialmente obrando por la paz y el encuentro entre hermanos, porque el compromiso con el crecimiento de esta patria grande es la razón de ser del pueblo en uniforme.

¡QUE VIVA EL EJÉRCITO NACIONAL BOLIVARIANO!

¡QUÉ VIVA LA ARMADA NACIONAL BOLIVARIANA!

¡QUE VIVA LA AVIACIÓN MILITAR BOLIVARIANA!

¡QUE VIVA LA GUARDIA NACIONAL BOLIVARIANA!

¡QUÉ VIVA LA MILICIA NACIONAL BOLIVARIANA!

¡QUE VIVA LA FUERZA ARMADA NACIONAL BOLIVARIANA!

¡QUÉ VIVA LA UNIÓN CÍVICO MILITAR!

¡QUE VIVA VENEZUELA!

¡CHÁVEZ VIVE!

LA PATRIA SIGUE…

¡INDEPENDENCIA Y PATRIA SOCIALISTA!

¡VIVIREMOS Y VENCEREMOS!

quinta-feira, 27 de março de 2014

5 HERÓIS


Comissão pede indulto para Cinco Cubanos condenados nos EUA por conspiração


Marcela Belchior
Adital

A Comissão Internacional de Investigação sobre o caso Cinco Cubanos solicita ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a concessão de indulto pleno aos acusados e a liberação imediata e incondicional das três pessoas que permanecem encarceradas em terras estadunidenses. As considerações foram publicadas em relatório preliminar que defende o cumprimento dos direitos humanos.
Os Cinco Cubanos foram condenados em Miami (EUA), no ano de 2001, por delitos relacionados à Segurança Nacional daquele país, dentre eles, conspiração para espionar o Estado. O governo cubano, no entanto, reconhece que Gerardo Hernández Nordelo, Ramón Labañino Salazar, Antonio Guerrero Rodríguez, Fernando González Llort y René González eram agentes da inteligência cubana, mas afirma que eles estavam espionando somente grupos terroristas de exilados cubanos, não o governo dos Estados Unidos. Além do crime de espionagem, Hernández foi condenado por conspiração para cometer homicídio.
Nesse contexto, a preocupação da Comissão tem sido averiguar se os acusados têm usufruído do benefício pleno de direito humano fundamental a julgamento justo, independente e imparcial. Segundo o relatório, todos os cinco cidadãos cubanos foram submetidos a reclusão solitária desde cerca de 17 meses antes do início do julgamento e nenhum deles têm obtido acesso suficiente aos documentos relacionados ao processo, determinantes para a construção adequada da defesa.
Outras graves lacunas no cumprimento dos direitos dos acusados versam sobre a insuficiência de comunicação entre eles e seus representantes legais e sobre a possibilidade de indução do caso à parcialidade, já que o processo foi conduzido na cidade de Miami, nos próprios Estados Unidos. Acrescenta-se a isso denúncias de que o governo estadunidense haveria financiado meios de comunicação para garantir uma publicidade negativa contra as cinco pessoas, tanto antes quanto após o julgamento.
A Comissão destaca ainda que algumas opiniões apontam que nenhum dos condenados pretendeu cometer atos de violência ou dirigir-se contra os EUA ou seu governo. Defende que a informação levantada por eles destinava-se a prevenir atos de violência de maneira privada e ações anti-cubanas, originadas dentro do território estadunidense, mas não de autoria do Estado daquele país. "A percepção dos Cinco Cubanos era que o Governo dos Estados Unidos não estava fazendo o suficiente para deter ações violentas anti-cubanas a partir do seu território”, explica.
Como argumento, o documento destaca que a adesão dos EUA à solicitação da Comissão, concedendo a remissão total da pena, poderá colaborar para a boa relação entre os dois países. "Demonstrando, assim, a adesão hoje do Presidente dos Estados Unidos da América e seu governo a normas universalmente aceitas de moral, equidade e justiça, o que contribuirá para a normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba, representando um passo significativo em direção à justiça e à paz mundial”, avalia.
Campanha internacional
Os Cinco foram presos em Miami no dia 12 de setembro de 1998 e indiciados pelo governo dos EUA por 26 crimes. O julgamento, iniciado em novembro de 2000, durou sete meses. Em junho de 2001, o grupo foi condenado por todos os crimes pela corte em Miami. Já em dezembro do mesmo ano, cada um foi condenado a tempos variados de prisão: Hernández foi condenado a duas prisões perpétuas, Guerrero e Labañino foram condenados a prisão perpétua, Fernando Gonzáles foi condenado a 19 anos e René Gonzáles a 15 anos. Nos anos seguintes, uma série de apelações levou a novas sentenças para o caso.
Desde suas condenações, há uma campanha internacional para que os Cinco sejam libertos. Nos EUA, há o Comitê Nacional para Libertar os Cinco Cubanos, representado em 20 cidades daquele país e em outros 30 países. Em Cuba, eles são vistos como heróis nacionais e apontados como tendo sacrificado suas liberdades em defesa de seu país.

segunda-feira, 24 de março de 2014

GOLPISTAS ASSASSINOS

Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto

Mário Magalhães 

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura (1964-85), o coronel reformado Paulo Malhães afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados.

O relato histórico do oficial do Exército foi feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e revelado nesta sexta-feira pelo repórter Chico Otávio.

Malhães se referia a presos políticos assassinados na chamada Casa da Morte, um imóvel clandestino na região serrana fluminense onde servidores do Centro de Informações do Exército detinham, torturavam e matavam opositores da ditadura. De acordo com o coronel, os cadáveres eram ensacados junto com pedras. Dedos e dentes eram retirados para impedir a identificação, na eventualidade de os restos mortais serem encontrados. As vísceras, para o corpo não boiar.

Veterano da repressão mais truculenta do passado, Malhães figura em listas de torturadores elaboradas por presos. É ele quem assumiu ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva (post aqui).

Seu testemunho, sem vestígios de arrependimento, contrasta com o de aparente mitômano surgido em anos recentes. Malhães não é um semi-anônimo,mas personagem marcante para seus pares em orgãos repressivos e para presos políticos.

Dois trechos do seu depoimento à comissão, conforme reprodução de “O Globo” (a reportagem pode ser lida na íntegra clicando aqui):

1) “Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

2) “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Com a frieza de quem conta ter ido à padaria, Malhães afirmou, referindo-se ao local onde vive, a Baixada Fluminense: “Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui”.

domingo, 23 de março de 2014

VENEZUELA : MINORIAS INTENSAS



Por Felippe Ramos, no sítio Opera Mundi:

No último mês, desde o dia 12 de fevereiro, a Venezuela tem sido mais que um país; tem sido múltiplos países, dependendo do discurso elaborado a partir da inclinação e do objetivo político de cada narrador (atores políticos organizados, não organizados e imprensa). Em meio a um furacão de discursos, a dificuldade de entender o que acontece no país se apresentou tanto ao cidadão venezuelano com uma identidades política muito forte (chavista ou opositora) como ao estrangeiro que vem ao país para narrar somente uma parte da multiplicidade da realidade. Para os estrangeiros que nunca estiveram na Venezuela e que contam somente com o que é difundido pela imprensa, mais que incompreensão, o que abunda é uma imagem caricatural.

Ambos (o cidadão e o estrangeiro) me fazem lembrar do passarinho do conto do grande escritor Machado de Assis (talvez por causa da Feira Internacional do Livro da Venezuela, que acontece até o dia 23 de março em Caracas e que esse ano tem o Brasil como país homenageado). Nesse conto “Ideias do Canário”, o autor descreve o pensamento do pássaro que, vivendo em uma gaiola pendurada em uma loja de coisas antigas, pensa que o mundo é somente o que ele pode ver detrás das grades às quais seus movimentos estão limitados. A armadilha está no fato de que o passarinho acredita ser livre e, portanto, acredita que o que vê não é o horizonte limitado da sua gaiola, mas o universo completo - a própria realidade.

De fato, ao conversar com jovens de classe média que protestavam na Praça Altamira, em Caracas, o local mais simbólico do antichavismo radical desde o golpe contra Hugo Chávez em 2002, eu pude perceber que eles acreditavam de coração que quase toda a Venezuela está contra o governo, com exceção de alguns poucos que, supostamente, me diziam, ganhavam dinheiro do governo e, por isso, teriam interesse em que ele continuasse existindo. Ainda que sejamos generosos e ampliemos a simbólica praça até um quilômetro de seu raio, nesse quilômetro quadrado, situado na região mais nobre da capital, se encontravam os protestos opositores (às vezes haviam protestos em outras grandes cidades, principalmente no Estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia). O jovem da Praça Altamira obviamente não estava sozinho. Contou com a ajuda da imprensa para reforçar a imagem equivocada ou limitada da sua realidade. Principalmente da imprensa internacional.

Por exemplo, os correspondentes brasileiros da TV Globo e do jornal Folha de São Paulo faziam suas reportagens, quase todos os dias, na Praça Altamira: falando das mortes causadas pelos protestos, mostravam gases lacrimogêneos, detenção de jovens e até de alguns repórteres, pneus queimando, rostos cobertos, gritos, repressão, desespero. Diziam que Caracas estava colapsada, que “o regime” censurava ilegalmente, que as multidões tinham transformado a Praça Altamira em uma espécie de Praça Tahrir [no Cairo] ou de Praça Maidan [em Kiev] da América Latina. Isto é, para esse discurso, o governo tinha poucos dias de existência. Sua queda, assim como aconteceu no Egito ou na Ucrânia, seria inevitável.

A força dessas narrativas do apocalipse é tão grande que eu mesmo quase fui contaminado por esse clima de terror. Houve dias nos quais ao me conectar ao Twitter, um certo pânico me dominava. Então, eu saia de casa. Mas não para andar por qualquer rua, mas pelas ruas bairros mais distantes da Praça Altamira (23 de Enero, Catia), das zonas comerciais mais populares (Chacaito, Sabana Grande, Praça Venezuela) e do centro da cidade (Praça Bolívar, El Silencio, El Calvario). Um tipo de região que, diferentemente da Praça Altamira e de suas zona de influência, envolve mais de dois terços da cidade de Caracas, em termos de espaço e de população. Com a exceção de uns três ou quatro dias mais tensos, depois da prisão do opositor radical Leopoldo López, líder do movimento La Salida, que buscava a queda imediata do presidente eleito Nicolás Maduro, a maior parte da cidade de Caracas tentava seguir suas atividades cotidianas de trabalho e comércio. É claro que havia uma forte presença de policiais e da Guarda Nacional, grafites contra o governo, lixo e resíduos usados em algumas barricadas na noite anterior. Alguns poucos dias houve panelaços, o ruído forte das panelas golpeadas por colheres nas janelas de edifícios em regiões opositoras.

Portanto, se a existência dos protestos, alguns dias de fortes protestos, era inegável, por outro lado, a existência da cidade que lutava para continuar sua normalidade também era inegável. Mas esse grande detalhe não era percebido pelo jovem de Altamira e muito menos pela imprensa internacional. Não lhes importava o fato de que, em Catia, região gigantesca e superpovoada da cidade, não haviam “guarimbas”, nome que se dá para as barricadas na Venezuela. Não lhes importava o fato de que a Praça Bolívar, no centro político da capital, e, como consequência, do país, havia crianças brincando tranquilamente. Enquanto a correspondente da Folha de São Paulo dizia em seu Twitter que o governo tinha censurado o Twitter, não lhe importava que eu, também do meu Twitter, em Caracas, lhe dizia que não era verdade, por mais que seja ridícula uma discussão no Twitter sobre a impossibilidade de usá-lo.

A imagem de um país em chamas foi, então, fabricada. E, claro havia chamas, principalmente em frente à gaiola do canário. Mas fora da loja de antiguidades todo um universo com outras realidades estava sendo ignorado. No carnaval, em fui testemunha do surrealismo de passar por uma manifestação da oposição, continuar em frente e chegar ao centro comercial de Saban Grande onde milhares de moradores com seus filhos vestidos de heróis brincavam protegidos por um grande número de policiais. Para a imprensa e para o jovem de Altamira, só existia a manifestação. O menino, sua mãe e o carnaval não existiam. Um governo não cai se, enquanto há uma manifestação opositora, a duzentos metros há uma parte do povo — e uma grande parte do povo — que segue sua vida normalmente e que, se obviamente está descontente com os fortes problemas da conjuntura econômica, segue pensando que é melhor manter o governo que existe para não pagar o preço de uma mudança de governo que não sabem como seria e no que resultaria.

O cientista político Robert Dahl criou o conceito de minoria intensa para explicar um setor da sociedade quantitativamente minoritário, mas coeso, com uma liderança e um programa. Na Venezuela, há uma minoria intensa de opositores radicais, impacientes porque vivem há 15 anos sob um governo que odeiam e porque sabem que não têm a capacidade de ganhar pela via eleitoral em um curto prazo. A derrota para Nicolás Maduro por 1% nas eleições de abril de 2013 foi um duro golpe na esperança que essa oposição tinha de aproveitar a morte de Hugo Chávez para acabar com o chavismo. Portanto, essa parcela da oposição mais desesperada está disposta a fazer grandes sacrifícios, talvez até arriscando a ordem democrática e constitucional, ainda que o neguem, para conseguir superar o chavismo.

Esse setor, composto por [opositores que vão] desde jovens estudantes da classe média até idosos conservadores tradicionais, reconhece em Leopoldo López e na deputada Maria Corina Machada seus líderes. Um sinal de que se trata de uma minoria é que a deputada Maria Corina, ainda que tenha sido a deputada mais votada da oposição nas eleições de 2010, obteve somente 3,7% dos votos nas prévias da coalização opositora quando buscava, em 2012, ser candidata à presidência da República. Leopoldo López, depois de ter sido prefeito de uma parte da cidade de Caracas, não tem agora nenhum mandato eletivo e é somente líder do seu próprio partido político. Juntos, os dois foram os líderes mais visíveis dos protestos que ocorreram no país. No domingo, 16 de março, Maria Corina convocou seus seguidores a marchar contra “os cubanos”, afirmando existir interferência da ilha caribenha na Venezuela. Ao contrário do movimento latino-americano contemporâneo, de ajuda Cuba a sair do isolamento imposto por décadas de embargo norte-americanos e pela hegemonia neoliberal na região nos anos 90, essa parte de oposição venezuelana apresenta um forte sentimento anti-Cuba.

Esse sectarismo reacionário incomoda outros setores da ampla coalização de oposição, como os empresários, que aceitaram o convite do presidente Nicolás Maduro ao diálogo. Lorenzo Mendoza, presidente das empresas Polar, a mais importante do país, e Jorge Roig, presidente da Fedecámaras, a câmara venezuelana de comércio, organização que foi ator fundamental no golpe de 2002, pediram, no Palácio Presidencial de Miraflores, que o governo esqueça do passado e construa junto aos empresários o futuro. Do lado político, Henrique Capriles, candidato derrotado por ampla vantagem por Hugo Chávez em 2012 e por pouco por Nicolás Maduro em 2013, sabe que a sua própria existência política e a superação do chavismo dependem do isolamento dos setores mais reacionários da oposição. Por meio de sua conta no Twitter, disse que é necessário se aproximar das massas mais pobres da sociedade e que não é suficiente fazer barricadas nas zonas mais ricas. Ele quer falar não somente para os ouvidos antichavistas, mas para o eleitorado mais amplo, que inclusive votou no presidente Hugo Chávez.

Fica claro, portanto, que o fato de 49,12% dos venezuelanos terem votado em Capriles nas eleições presidenciais de abril de 2013 não significa que todos eles defendam que o governo deve ser retirado por um golpe aventureiro qualquer. Muito pelo contrário, a oposição radical só responde pela minoria absoluta dentro da própria coalização e do eleitorado opositor. Por outro lado, em todas as eleições nacionais desde a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999, o chavismo conseguiu mais que os 50% +1 dos votos necessários para exercer o governo com legitimidade. Como comparação, é necessário lembrar que, devido ao sistema colegiado e indireto nos Estados Unidos, foi possível que o presidente republicado George W. Bush ganhasse as eleições de 2000 com menos votos que o candidato democrata Al Gore. Como isso estava previsto na ordem constitucional norte-americana, ninguém falou de falta de legitimidade. A controvérsia que houve foi por causa de denúncias de fraude eleitoral no Estado, a Flórida, que garantiu a vitória republicana.

Parte das dificuldade políticas do chavismo se encontra, nesse sentido, na falta de hegemonia simbólica: o que as minorias intensas conseguiram é justamente a redução da legitimidade política do chavismo, por meio da construção de um discurso, aceito internacionalmente, que desenha o governo venezuelano como uma espécie de “ditadura”, ainda que esse movimento político tenha ganho quase vinte processos eleitorais com a presença de observadores internacionais. Essa parte da oposição acredita que o voto não é suficiente para que se afirme a existência de uma democracia (com o que estou de acordo, mas por razões muito diferentes das que eles apresentam). Fala, desse modo, da existência de um “regime autoritário” que reprimiu a oposição e os protestos que tomaram algumas partes da capital e de outras cidades.

Entretanto, se o voto não é suficiente para a existência da democracia, tampouco a repressão a protestos é suficiente para qualificar uma forma de governo de “regime autoritário”. Lembro-me de que, quando eu morava nos Estados Unidos como professor visitante em 2011, o governo norte-americano teve de enfrentar os protestos do Occupy Wall Street. Em uma ocasião, enquanto os manifestantes marchavam pela ponte do Brooklyn, a polícia fechou os dois acessos e prendeu 700 pessoas de uma só vez, incluindo um jornalista do The New York Times. Nos distúrbios na Inglaterra, que eu também tive a oportunidade de testemunhar em 2011, foram registrados muitos casos de brutalidade policial, principalmente contra negros e imigrantes. Na França, onde é comum haver protestos com queima de carros, a polícia também costuma reagir fortemente. Poderíamos ainda falar da brutalidade policial nos protestos do 15M da Espanha, dos desempregados na Grécia e das conhecidas brutalidades da polícia militar no Brasil e dos carabineiros do Chile, para ficarmos com alguns poucos exemplos. Em nenhum desses casos, todos lamentáveis, a imprensa internacional falou de “regimes autoritários”. Em geral, a imprensa costuma usar, inclusive, os dados oficiais de mortos, feridos e detidos fornecidos pela própria polícia. Na Venezuela, preferem fontes “alternativas”, como ONGs ou redes sociais.

As características muito particulares do bolivarianismo chavista, com forte presença das Forças Armadas, dificultaram a geração de apoio ao movimento, inclusive dentro da própria esquerda. O apoio é muito mais tático e formal do que estratégico ou ideológico. Nos países da América Latina que saíram de ditaduras militares, é muito difícil para a esquerda compreender e apoiar um governo de esquerda com traços militaristas. As novas objeções que surgem dos movimentos juvenis e do mundo virtual da internet, que geralmente assumem características mais à esquerda, na Venezuela são radicalmente antichavistas, como o grupo Anonymous. Os intelectuais com alguma identificação com as ideias de esquerda, alguns que inclusive apoiaram o chavismo durante anos, também se afastaram das propostas chavistas que vão além de uma democracia liberal-representativa com participação social. De fato, o chavismo defende, em seu programa de governo, a substituição dessa democracia por outra, chamada de “democracia direta e protagônica”, em um, ainda não muito claro, Estado comunal. Do ponto de vista dos atores com capacidade de formação de discursos hegemônicos, o chavismo ficou sozinho não somente na direita, mas também na esquerda.

Dessa maneira, fica fácil para a imprensa internacional criar o estereotipo à distância, desenhando narrativas falsas ou parciais, porque ninguém fará o esforço de verificar a verdade. Muito pelo contrário: o público, em geral mais conservador, já espera ansioso o tipo de notícia que verá sobre o país e que fortalecerá seus próprios preconceitos: “regime”, “censura” etc. Pode-se incluir aí, ainda, o problema dos testemunhos, considerados no Direito Penal a prostituta das provas, com os quais os meios de comunicação enchem suas páginas de narrativas subjetivas de pessoas comuns com o objetivo de agregar valor à verdade. Obviamente seria possível buscar testemunhos favoráveis ao chavismo (lembremos que 51% dos eleitores votaram em Maduro), mas esses não aparecem nos papéis dos jornais ou nas telas do canais de televisão.

De qualquer maneira, o governo conseguiu sobreviver aos mais recentes desafios políticos e negociou não apenas com setores privados, mas também com o próprio líder político, agora moderado, Henrique Capriles. Ainda assim, levou a cabo uma tática de guerra de posição usando como recurso também a repressão específica de algumas formas de protestos mais violentos (com o uso de barricadas com arames farpados, garrafas com gasolina etc), principalmente com o objetivo de evitar que a Praça Altamira pudesse se transformar em território fora do controle governamental e para impedir a perda de controle na região que faz fronteira com a Colômbia. Agora o governo parece estar no dia seguinte da planificação. Com estabilidade política em processo de restabelecimento, neutralizando os líderes radicais da oposição que defendem saídas inconstitucionais e talvez reconhecendo a legitimidade da oposição que segue o caminho da legalidade vigente, o governo poderá se ocupar das questões econômicas, que continuam sendo o motivo de preocupação e insatisfação não apenas de seus opositores, mas também de seus simpatizantes. Inflação e escassez afetam sobretudo as classes assalariadas e as que vivem na informalidade. Já é hora de ir além do mundo do passarinho.

* Felippe Ramos é sociólogo, diretor do Instituto Surear para a Promoção da Integração Latino-americana e pesquisador do Ipea (Instituto de Investigação Econômica Aplicada). Foi professor do departamento de Sociologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e professor-visitante do Central Arizona College, em Coolidge, Arizona (EUA), como bolsista da FulbrightAssociation. Sua área de pesquisa atual é a integração regional na América Latina e os problemas da democracia e do desenvolvimento brasileiro e latino-americano. Vive em Caracas, na Venezuela, onde desenvolve pesquisas sobre a cooperação bilateral Brasil-Venezuela.

GOLPE EM BOGOTÁ

Ex-guerrilheiro, prefeito destituído de Bogotá pressiona por retomada do cargo


Adital
No momento de transição oficial entre o prefeito destituído Gustavo Petro e o prefeito interino Rafael Pardo, o ex-guerrilheiro Petro anuncia que viajará a Havana, capital de Cuba, para dialogar com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A pretensão seria tentar articular uma nova Assembleia Constituinte no país com vistas a retomar o cargo de prefeito de Bogotá.
Desde que fora destituído do cargo, em 09 de dezembro de 2013, Petro interpreta que houve um "golpe de Estado” na Colômbia. A ordem para sua destituição partiu do procurador geral do país, Alejandro Ordóñez, que apontou, na ocasião, "três faltas graves” e irregularidades no projeto de recolhimento de lixo apresentado pelo prefeito da capital como justificativa, tornando-o inabilitado por 15 anos para exercer o cargo.
Prefeito interino é desarticulador do grupo guerrilheiro do Petro
O economista Gustavo Petro é considerado um dos políticos de esquerda mais proeminentes da Colômbia. Em sua juventude, o prefeito destituído militou no Movimento 19 de abril (M-19), grupo guerrilheiro que deixou o movimento armado e se incorporou à vida político-partidária. O M-19 foi desmobilizado no chamado processo de paz promovido pelo governo de Virgílio Barco (1986-1990).
O líder desse processo de desarticulação do movimento é justamente o prefeito que assumiu o governo de Bogotá, Rafael Pardo, que, até então, atuava como ministro do Trabalho e já foi secretário de Integração Popular e diretor do Plano Nacional de Reabilitação (PNR), durante governo de Barco.
"Transição traumática”
Soma-se a isso a decisão de todos os secretários da gestão de Petro de deixarem o cargo em 1º de abril e uma onda de protestos na capital pelo mau serviço público nos transportes e na limpeza urbana. Nas últimas semanas, uma série de manifestações tem marcado as ruas da capital da Colômbia. A população reclama de frequentes problemas no sistema de transportes de Bogotá.
Além disso, os bogotanos reivindicam medidas de controle para a insegurança da capital e falhas no sistema de manutenção da limpeza urbana do Bogotá. Os cidadãos apontam o momento como uma "transição traumática” na conjuntura política da capital.
Histórico
Nos últimos seis anos, a capital teve três mandatários: o economista e advogado Samuel Moreno, inabilitado por três meses enquanto exercia o cargo; a economista e primeira mulher a dirigir um partido político na Colômbia, Clara López, que havia substituído Moreno, e, agora, Gustavo Petro. Razões políticas são apontadas para a postura de Alejandro Ordóñez, que já havia desabilitado outros funcionários públicos da Colômbia, como a ex-senadora Piedad Córdoba (por 18 anos) e o representante de Bogotá na Câmara, Germán Olano (por 12 anos).
Apoio popular
Em janeiro deste ano, milhares de bogotanos marcharam nas ruas da capital da Colômbia em apoio ao ex-prefeito Gustavo Petro. O ato foi construído nas redes sociais na Internet, envolvendo milhares de pessoas. Na ocasião, ele mesmo chegou a convidar a população a comparecer ao movimento, através de sua conta no Twitter: "Levanta tua mão serena, digna e orgulhosamente grita NÃO PASSARÃO”, escreveu Petro.

Nesta quarta-feira, 19 de março, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, desqualificou as medidas cautelares expedidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que havia solicitado ao governo os documentos do caso para verificar como se deu o processo, orientando pela restituição de Petro ao cargo.
Para o prefeito destituído, a Justiça que protege os povos da América Latina foi agredida pelo presidente Santos, demonstrando "que não está capacitado para adiantar o processo de paz no país”. "Como vai ser capaz de dizer que reconhecerá as garantias civis dos que agora estão nessa mesa de paz, sendo que não pôde reconhecer as medidas cautelares daquele que ganhou pelo voto popular a Prefeitura de Bogotá?”, indaga.
O caso pode ter impactado negativamente na capital cubana, onde o governo colombiano e as FARC negociam acordo que ponha fim ao conflito armado de meio século no país. As Farc qualificaram o caso como "um grave golpe contra o processo”. "É uma mostra das garantias da democracia colombiana às quais nos convidam a nos vincular”, disse, com ironia, um dos negociadores da guerrilha.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A REVOLUÇÃO QUE NÃO SAI NO JORNAL

A revolução que não sai no jornal

Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior:


Que uma feira de livros inaugurada em Caracas, na semana passada, tenha atraído tanto ou mais público que um protesto contra Cuba marcado para o mesmo dia, pode soar estranho ao discernimento de quem se informa apenas pela mídia conservadora.

Mas foi exatamente o que sucedeu na última sexta-feira, como relata o economista Pedro Silva Barros, que passa a colaborar com Carta Maior diretamente da capital venezuelana.

Seu oportuno texto de estreia informa não apenas que - pasmem - existem venezuelanos mais interessados em literatura do que em rejeitar a parceria cubana nas áreas da saúde, educação etc.

O inusitado, quando se toma a emissão conservadora como norma, é mais amplo e profundo.

Pedro Silva Barros relata a existência de uma verdadeira revolução silenciosa nos bastidores da suposta conflagração irreversível da sociedade venezuelana, sugerida pelos despachos que o ‘jornalismo isento’ envia ao Brasil.

Erradicado o analfabetismo em 2005, feito atestado pela Unesco e graças à estreita cooperação entre Havana e Caracas, o governo venezuelano cuida de baratear o acesso à literatura, expandindo uma rede de livrarias públicas e semeando editoras pelo país.

Uma delas, informa Pedro Barros, a Editorial El Perro y la Rana, já reúne um catálogo de mais de 4.300 títulos.

A malha de livrarias públicas - Librerías del Sur, inclui lojas em todos os estados. A venda de livros subsidiados em locais de grande circulação pública, como estações do metrô, tornou-se trivial.

Não há notícia de ‘dirigismo autoritário’ na política editorial. A menos que se inclua nessa pauta conservador a distribuição gratuita de um milhão de exemplares de Don Quixote de La Mancha, obra-prima da literatura mundial, cujo quarto centenário foi festejado assim pelo então Presidente Chávez.

Essa revolução se entrelaça a outra, a do acesso à educação superior na Venezuela: o país tem cerca de 28 milhões de habitantes e dois milhões de universitários (o Brasil tem sete milhões para uma população de 190 milhões).

Nada disso diminui nem desmente a existência de uma polarização política nesse momento, extremada pela radicalização de uma parte da oposição venezuelana, e que já fez 29 vítimas fatais dos dois lados.

O que esses relatos ajudam a entender é por que um governo que teria contra si uma sociedade integralmente dilacerada, como ensina o martelete conservador, não caiu até agora .

A dificuldade de se obter maior transparência no noticiário relacionado aos conflitos e disputas vividos naquele país - razão do novo nome incorporado à equipe de colaboradores de Carta Maior - fala diretamente ao momento brasileiro.

Não se trata de equiparar a radicalidade , nem os desafios contidos na agenda venezuelana.

Trata-se de chamar a atenção para o decisivo papel da informação plural quando do que mais se necessita é dotar a agenda do desenvolvimento de um razoável grau de coerência, que permita concentrar energias em processos e prioridades de interesse da maioria da população.

Essa é uma das mais delicadas operações da democracia: assegurar que o embate político gere a força, a legitimidade e o consentimento necessários à aglutinação das grandes maiorias requeridas às transições de ciclo histórico.

O oposto disso é o golpe. A crispação neoudenista. O comportamento vergonhoso de uma mídia que, à falta de cardápios defensáveis dedica-se a denunciar supostos privilégios no do ex-ministro José Dirceu.

Escandaliza-a a hipótese de que o ex-ministro possa, digamos, ter devorado um Big Mac na Papuda, mas não a sua retenção ilegal em regime fechado, depois do direito assegurado ao semiaberto.

Qual o passo seguinte dessa espiral da exasperação?

Aquilo que o conservadorismo brasileiro não hesitou em acionar há 50 anos.

Quando se viu na iminência de ceder espaço à hegemonia em formação em torno das reformas de base propostas por Jango, (como ficou documentado em pesquisas do Ibope, só recentemente divulgadas), golpeou a democracia a propósito de defendê-la.

É impossível exagerar a importância da mídia no processo de desenvolvimento de uma sociedade.

De qualquer sociedade. Mas sobretudo daquelas que, a exemplo da Venezuela, Brasil, Argentina, entre outras, vivem nesse momento a inflamável confluência de uma dupla travessia.

Ela inclui reformar o motor de desenvolvimento em meio à habitual escassez de recursos, agravada pela reordenação da economia mundial .

O conjunto estreita adicionalmente a margem de manobra do Estado para gerir as dilacerantes contradições do capitalismo na América Latina.

A alternativa ao golpismo é a repactuação política da agenda do desenvolvimento.

Seu requisito básico é facultar à sociedade o acesso a dados e análises que lhe permitam assumir o comando do seu destino.

Se nem o florescimento editorial na Venezuela é informado por aqui, o que esperar das questões mais agudas - e as graúdas - que envolvem as escolhas do desenvolvimento brasileiro?